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(in http://saude.sapo.pt/saude-medicina/checkup-prevencao/artigos-gerais/mitosyeyverdadesydasylentesyintra-oculares.html, Maio 2011)

O oftalmologista Armando Garcia relembra a história do criador das lentes intra-oculares

Há quem julgue que é preciso estar quase cego para operar as cataratas, assim como há mães que pensam que não podem ter o filho de parto normal por terem sido submetidas a cirurgia ocular. São tudo mitos.

Harold Ridley, médico da Força Aérea Inglesa durante a II Guerra Mundial, assistiu tantos pilotos vítimas de estilhaços que acabou por perceber que o olho não reagia ao acrílico da canopy. Daí ao tratamento da catarata com lentes intra-oculares foi um pulo. Apesar de trabalhar nos principais hospitais de Londres, todos lhe chamavam louco! Ridley não quis saber, contratou uma empresa para lhe fazer as lentes e começou a operar. Estávamos no início dos anos 50!

“Tinha a comunidade científica toda contra ele, mas não há dúvida de que foi o pioneiro”, recorda o oftalmologista Armando Garcia para acrescentar que o maior problema era tirar/extrair a catarata. Os pontos e a cicatriz alteravam a anatomia ocular, para além de obrigar o doente a longos períodos de internamento hospitalar (duas semanas de cama) e a mais de três meses de recuperação…

Já nos anos 80, o médico americano Kelman estava no dentista a fazer a sua habitual higiene dentária, quando lhe ocorreu que poderia usar a mesma ponta de ultra-sons para liquefazer a catarata. “Também foi uma loucura! Ninguém acreditava que fosse possível usar ultra-sons no olho”, recorda uma vez mais o especialista em cirurgia ocular, para quem o grande passo foi indiscutivelmente a possibilidade de desfazer a catarata no local (dentro do olho, “in situ”) sem pontos.

O boom deste procedimento dá-se em 1987, e, daí para a frente, tudo se foi aperfeiçoando. O passo seguinte foi a criação de uma lente que pudesse entrar dobrada ou mesmo injectada. “Em 1993-94, começam a aparecer em massa as lentes dobráveis e injectáveis. Mesmo assim ainda eram necessários seis a sete pontos, enquanto hoje a incisão pode ser de 1,2 a 1,4mm, já que se usa a mesma incisão para “desfazer” a catarata e introduzir a lente”, assegura Armando Garcia.

Também aqui havia muito a melhorar, já que inicialmente as lentes só tinham focagem fixa, ou seja eram monofocais. Segundo o especialista, faltava criar uma lente o mais parecida possível com o cristalino. No final dos anos 90, iniciaram-se duas vias de investigação: as lentes multi-focais ou progressivas, e as lentes acomodativas. “A vantagem destas últimas era poderem deslocar-se no olho para a frente e para trás, isto porque se pressupunha que a lente mantinha esse comportamento, mas, infelizmente, não é o que acontece!”

 

 


O oftalmologista garante que só nos primeiros meses é que se mantém essa movimentação da lente. “Ao fim dum ano torna-se uma lente unifocal, ou seja, não foca para várias distâncias porque a mobilidade, com o tempo, vai-se perdendo dentro do olho.”

 

Já as multi-focais dependem do desenho da lente e não da sua mobilidade dentro do olho. “Cerca de 75 a 85 por cento dos cirurgiões da presbiopia (cirurgia para corrigir a “vista cansada”) usam lentes multi-focais, distribuindo-se os restantes 15 por cento por outros métodos que têm existido mas que não têm provado uma eficácia duradora.”

Mesmo assim esta não é uma solução universal. O cirurgião tem de encontrar uma solução criteriosa para cada pessoa. Os custos também são elevados e por isso as decisões devem ser muito bem ponderadas por cirurgiões experientes neste campo.. Actualmente, operam-se cerca de 50 mil cataratas por ano, ao passo que a colocação de lentes multi-focais não chega aos dez por cento.

“Portugal não fica atrás de nenhum país de primeira linha, europeu ou americano”, assegura Armando Garcia para se congratular com o facto dos congressos europeus estarem cheios de médicos americanos. E justifica: “A Europa tem nomes na vanguarda da investigação.”

Mitos mais frequentes

Ainda hoje há quem pense que o olho tem de cegar para ser operado, um mito que é transversal na sociedade portuguesa e que também envolve profissionais de saúde e não só. “O risco em que se incorre ao extrair uma catarata já muito dura é incomparavelmente maior, para além da pessoa perder qualidade de vida e de visão durante muitos anos”, afirma o oftalmologista para defender que este mito tem de ser rapidamente combatido.

Igualmente transversal é a incidência da catarata na idade. Pode surgir à nascença (congénita), em crianças, jovens e jovens adultos, embora se registe um aumento de incidência a partir dos 50 anos, faixa etária em que, nas sociedades evoluídas, se regista um aumento no número das cirurgias.

E exactamente porque pode surgir em todas as idades, há mulheres que são operadas às cataratas muito jovens. Quando ficam grávidas pensam que a gestação lhes vai alterar, de uma forma significativa, a miopia, e outras há que pensam que não podem ter os filhos de parto normal por causa do esforço de dar à luz. “São tudo mitos. As pessoas têm de ser informadas que tudo isto não faz sentido!”, conclui Armando Garcia.

Texto: Palmira Correia

Maio 2011